O alarme soou.
Abriu os olhos tentando assimilar aquele faixo de luz que entrou rasgando sua retina e os fechou novamente. Só mais 10 minutinhos. Procurou a tecla do touch screen do celular. Cobriu-se, sentindo o tecido do edredon tocar seu rosto naquela sensação deliciosa de conforto ao poder dormir mais um pouco.
Logo menos, levantou-se. Dirigiu-se ao banheiro para escovar os dentes com aquelas cerdas já gastas e colocou a pasta Tandy Tutti-Fruti na escova. Quando o gel doce tocou seus dentes, sentiu tanto com o paladar quanto o olfato aquela nostalgia de quando se aprontava para ir à escola na infância e usava a mesma pasta de dente. Uma saudade.
Um pouco depois, lá foi esperar o ônibus. No ponto, começou a notar as cascas do tronco da árvore carcomida que ou pessoas as arrancaram ou a própria natureza se incubiu de levar. Ali, viu um verdinho de seiva no meio do marrom. É. Certeza que foi recente e obra de algum ser humano que ali passara.
No terminal, muito barulho. Dos motores, das conversas, dos passos, dos carros do outro lado da avenida. A sonora que entra e bate que bate que bate no tímpano sem fim. Esperou o degrau certo para colocar seu pé na escada rolante e assim esperou. Muitas marcas desenhavam um conglomerado de pontos pretos e amassados no chão metálico, podendo perceber que eram chicletes velhos que agora também faziam parte daquela estrutura de se pisar.
Após sair do metrô, caminhando em direção ao trabalho, admirou-se rapidamente no reflexo do vidro de uma agência bancária. Er, até que está tudo em ordem. Mirou a frente.
No escritório, colocou a marmita na geladeira e lá estava aquele suco mais um dia na geladeira. Quantos dias será que ele está ali? Nem me arrisco a tentar tomá-lo. Fechou-a. Sentou em sua mesa e colocou aquele fone de ouvido que pega na borda da orelha. Isso porque elas nem são de abano. É, é. Em 30 minutos ela já está doendo. Ai, Ai. Melhor aqueles de colocar direto no ouvido mesmo.
No meio do expediente: balinhas de chá. A chefe colocou milhares delas no baleiro. Uns tem vício por café, outros por cigarro, alguns por papear com ciclanos enquanto fazem uma pausa no ofício. Eu gosto de pegar balinhas. Um gosto adocicado de chá sólido. Erva doce, camomila, erva cidreira que derretem na boca, pedindo compulsivamente mais e mais e mais balinhas. Shiups.
Aí no fim do dia, voltando para casa, parou na barraquinha de pipoca, mas pediu batata frita. Com sal da metade pra baixo e na metade de cima, por favor. Ah, amo tanto batata. Croc, croc. Salgada, frita, quebradiça e croc, croc entre os dentes.
Chegou em casa. Mais um dia feliz que seu cachorro lhe recebeu com festa. A ternura de encontrá-lo é tanta que o ritual é ir até a escadinha e afagar os pelos loiros e sedosos daquele vira-lata sapeca, falando com a voz o mais soprano possível perto da orelha atenta dele, afagos de amor de um dono para o seu cachorro do tipo: "Voxê é a coisa mais rica desse mundo. Sabia disso, seu loiro mais djago do universo?" Até escutá-lo responder, porque sim, eles respondem, RRUAU RRUAUUU pausadamente. Esse RRUAU não é um latido. É como se ele dissesse: "É veUUURRdade"
Por fim, depois de todas as tarefas de casa, além das higiênicas pós-mais-um-dia-rotineiro, entrou em seu quarto na mesma dúvida de todos os dias: desligar primeiro a TV ou o interruptor? Ir até o interruptor com o óculos no rosto ou deixá-lo sobre seu apoiador pinguim de óculos? Ah, deixa pra lá. Cada dia é de um jeito. E é assim que eu gosto. Detalhes sinestésicos diferentes a cada dia.
Cinco sentidos contornando meus dias.
Escrito por A Ême
Adorei. Uma das grandes tarefas de escrever: tornar o cotidiano, poesia.
ResponderExcluirAss: Srta. Paradoxo