quinta-feira, 15 de maio de 2014

Calças Caqui

Era bem de manhã, já me encontrava concentrada nos meus afazeres. Estava sozinha, o dia começava tranquilo, era uma segunda-feira. No horário exato, como sempre, ele chegou. Se havia algum sorriso em meu rosto, este sumiu. Era praticamente uma nuvenzinha cinzenta, nem negra era!, se arrastando e entristecendo o ambiente. Uma nuvem que usava calças caqui.

 Era uma figura peculiar, muito peculiar. Bastava olhá-lo por um tempo e notava-se que havia algo ali ... algo errado. Mas só convivendo com tal criatura compreendia-se que havia algo muito errado. E eu era uma dessas pessoas condenadas a conviver e entender toda sua complexidade entediante.

 Um daqueles tipos que no popular pode ser chamado de sem sal. Se houvesse mais crueldade no comentário (e também mais verdade) diria se tratar do tipo insuportável e intolerável. E era quieto, reservado, até que misterioso. Mais ainda sim, era um grande gasto de energia vital e social sustentar-se ao lado dele. Uma peça!

 Para começar, sua imagem era um pouco perturbadora. Era indiscutivelmente limpa e impecável. Era tão regrado e previsível, parecia estar estacionado no tempo, uma fotografia desagradável de se olhar. Seu cabelo, por exemplo, era exatamente o mesmo dia após dia! Não parecia cortado ou aparado, nem parecia crescer! A roupa, parecia vir de um guarda-roupas de desenho animado, daqueles que a personagem abre e há muitas e muitas mudas da mesma roupa. A blusa polo, sempre tons claros, de preferência, beges. A calça, a calça caqui! Sempre lá, metodicamente escolhidas na semana anterior, podia apostar! Toda sua figura era enjoativa, bege demais, cansada demais, envelhecida demais. Ah, acabava com minha segunda, aquele excesso de tons pastéis!

 E aquela calça caqui sem graça refletia-se no seu falar... quanta paciência no mundo era necessária para se travar uma conversa! O falar era lento, pausado, praticamente se entrava num transe ao ouvi-lo! Uma soneca podia ser muito bem disfarçada se possível lembrar de dizer-lhe uns “ahans” hora ou outra. E a teimosia? Gastaria-se uma tarde inteira a convencê-lo que existia no mundo mais que um punhado de livros e informações ultrapassadas!

 E o riso? Ah, o riso era ainda pior que a quantidade inesgotável de bege! Se o assunto era engraçado, lá estava a rir... um riso nervoso, compassado por pausas enervantes. Não importava o assunto. Se era a piada da vez, ria; se morte, ria também! Mas que demônio, que tinha que rir de tudo? Xingando a própria mãe? Lá vem a risada hahan-hahan-hahan-hahan...

 Calças caqui e tédio. Pronto, aí se dá uma bela descrição completa como ser humano. Se o tédio tivesse uma figura de carne e ossos, lá estava, rindo e se arrastando. A postura derrotista, tanto corporal como moral estava sempre ali, dando vontade de arrancar meus cabelos! Que raiva que aquela figura despertava, por estar tão entregue!

 Nas entrelinhas da costura de sua calça caqui estava escrito claramente que um dia, desejara ser mais e até mesmo, alguém. Às vezes quando acordava pela manhã, ele acreditava ser mais do que era. Contudo, não havia escapatória da verdade que era um derrotado, um grande perdedor. Outrora um rapaz cheio de vontades e sonhos, mas deixou-se abater e ser pisado pela vida e por pessoas que gritavam mais que ele. Àquelas polos pastéis sobraram apenas o abaixar de cabeça e a concordância, quando diziam que era um nada! E assim, ele assumiu aqueles ombros caídos, o arrastar dos sapatos pelos corredores, o riso nervoso, pois se não pode gritar ao mundo respeito, que fazer? Rir, rir... fingir que estava tudo bem. Querendo ou não, aquilo era ele, o tédio, a derrota, uma perda de tempo!

Porém, nunca soube que era mal de verdade. Naquela manhã, quando o relógio bateu o horário da nuvem encobrir a sala toda, nada. Esperei, achei estranho que uma pessoa calça caqui daquelas perdesse o horário, não, não ele. Mais meia hora se passou e nada... até que minha colega entrou na sala com um semblante misterioso. Havia nela uma sobriedade irônica, um querer-não-rir-mas-rindo. Achei gozado. Ela me jogou um jornal na mesa. Abri. Lá estava a manchete:

“Primeira pessoa morta efetivamente de tédio!”

Achei engraçado. Li mais um pouco. Olhei para minha colega e desatei a rir-querendo-não-rir.

A vítima? A esposa das calças caqui.

 Escrito por: Srta. Paradoxo.

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