segunda-feira, 21 de abril de 2014

Só me traga um chá

Pior é ter que fingir, sorrir, falar que está tudo bem, fazer as piadas de sempre, os costumeiros comentários sobre o tempo. Não que eu tenha vergonha da minha tristeza, seja daquelas que não se abrem. Eu só não quero ter que dissertar sobre minhas lágrimas, explicar ao mundo meus motivos fúteis. Não quero julgamento, avisos e conselhos que já me dei e preferi deixar para lá. Não que eu não queira ver a verdade, até porque sua especulação é tão sólida quanto a minha. Não quero ouvir bronca, puxão de orelha, que me digam que o meu sentimento é infundado. Ele nasceu, cresceu e me atormenta, é propriedade minha, alimentada de minhas experiências e da minha neurose.  Não quero dividir essa dor, essa intempérie com mais ninguém, quero apenas apreciá-la na sua vida breve e rasa de irracionalidade. Quero ficar de mal com o mundo e que ele me ignore de volta, nesse contrato silencioso e benéfico por hoje. Deixa eu amar minha tristeza e flertar com a solidão que são escolhas minhas, minhas decisões egoístas. Não me peça explicação e não queria me explicar. Só me deixe só e me prepare um chá, que amanhã o dia é outro e podemos conversar.

Postado por: Srta. Paradoxo.

Um comentário:

  1. Um texto digno do nome Srta. Paradoxo!
    Este texto me faz lembrar do texto intitulado "A solidão amiga" de Rubem Alves, um dos meus escritores e pensadores brasileiros predileto.
    Acho que não só de contos pode viver um escritor, assim como não só de chá podemos alimentar nossos queridos sentimentos.

    ResponderExcluir