segunda-feira, 19 de maio de 2014

O que o silêncio me falou

Ele devia ter seus oito, dez anos, pequeno, magrinho. Voltava da escola com sua mãe, parecia
alegre. Parecia, pois ele nunca diria isso. Era surdo-mudo.
Sua mãe estava cansada, meio chateada aquela semana. A vida era difícil e seu filho viver no
silêncio tornava tudo ainda mais complicado, dia após dia. Ela nunca tivera o prazer inenarrável de ver
seu filho, aquele lindo bebê, dizer sua primeira palavra, aquele momento tão esperado para toda a
família, aquele protótipo de palavra, qualquer palavra, tão simples, mas tem cara de milgre. Contudo,
esta mãe esperou, esperou e ela nunca veio. Nem nunca viria. 
Ela se sentira apreensiva, sentida. No começo, até se sentia arredia e revoltada. Por que com
ela? Mas como diz um bom e velho clichê, ninguém tem um fardo maior que o que pode carregar. E nem
todo clichê é ruim ou mentiroso. Com o tempo, ela se acostumou, entendeu e perdoou. Esse perdão
tornou a vida melhor, as dificuldade mais toleráveis. 
O fato era que, naquela semana, as coisas estavam pesadas e desanimadoras. O emprego não
ajudava, os problemas financeiros também não. E sempre tem alguém tendo uma semana ruim, porém é
incapaz de compreender que não é o centro do universo. E nesses dias, ela sempre se lembrava desse
pensamento triste e cruel: que jamais ouviu a primeira palavra de seu filho tão amado e tampouco
ouviria um “te amo, mamãe!”. 
Foi nessa gora que aquele menininho que vivia no silêncio ficou para trás alguns segundinhos e
em um montinho de mato, pegou um buquezinho de hortênsias e correu de volta para ao lado de sua
também amada mãe. Ele a cutucou e fez um final de “é para você”. Pega de total surpresa, seus olhos se
encheram de lágrimas, mas ela as segurou competentemente. Sorriu e lhe pegou a pequena mão e
foram juntos caminhando, mais felizes. Pois há outro velho clichê que diz que um gesto vale mais que mil
palavras. Muito mais que mil palavras. 
Pode perguntar para ela. 

Escrito por: Srta. Paradoxo.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Calças Caqui

Era bem de manhã, já me encontrava concentrada nos meus afazeres. Estava sozinha, o dia começava tranquilo, era uma segunda-feira. No horário exato, como sempre, ele chegou. Se havia algum sorriso em meu rosto, este sumiu. Era praticamente uma nuvenzinha cinzenta, nem negra era!, se arrastando e entristecendo o ambiente. Uma nuvem que usava calças caqui.

 Era uma figura peculiar, muito peculiar. Bastava olhá-lo por um tempo e notava-se que havia algo ali ... algo errado. Mas só convivendo com tal criatura compreendia-se que havia algo muito errado. E eu era uma dessas pessoas condenadas a conviver e entender toda sua complexidade entediante.

 Um daqueles tipos que no popular pode ser chamado de sem sal. Se houvesse mais crueldade no comentário (e também mais verdade) diria se tratar do tipo insuportável e intolerável. E era quieto, reservado, até que misterioso. Mais ainda sim, era um grande gasto de energia vital e social sustentar-se ao lado dele. Uma peça!

 Para começar, sua imagem era um pouco perturbadora. Era indiscutivelmente limpa e impecável. Era tão regrado e previsível, parecia estar estacionado no tempo, uma fotografia desagradável de se olhar. Seu cabelo, por exemplo, era exatamente o mesmo dia após dia! Não parecia cortado ou aparado, nem parecia crescer! A roupa, parecia vir de um guarda-roupas de desenho animado, daqueles que a personagem abre e há muitas e muitas mudas da mesma roupa. A blusa polo, sempre tons claros, de preferência, beges. A calça, a calça caqui! Sempre lá, metodicamente escolhidas na semana anterior, podia apostar! Toda sua figura era enjoativa, bege demais, cansada demais, envelhecida demais. Ah, acabava com minha segunda, aquele excesso de tons pastéis!

 E aquela calça caqui sem graça refletia-se no seu falar... quanta paciência no mundo era necessária para se travar uma conversa! O falar era lento, pausado, praticamente se entrava num transe ao ouvi-lo! Uma soneca podia ser muito bem disfarçada se possível lembrar de dizer-lhe uns “ahans” hora ou outra. E a teimosia? Gastaria-se uma tarde inteira a convencê-lo que existia no mundo mais que um punhado de livros e informações ultrapassadas!

 E o riso? Ah, o riso era ainda pior que a quantidade inesgotável de bege! Se o assunto era engraçado, lá estava a rir... um riso nervoso, compassado por pausas enervantes. Não importava o assunto. Se era a piada da vez, ria; se morte, ria também! Mas que demônio, que tinha que rir de tudo? Xingando a própria mãe? Lá vem a risada hahan-hahan-hahan-hahan...

 Calças caqui e tédio. Pronto, aí se dá uma bela descrição completa como ser humano. Se o tédio tivesse uma figura de carne e ossos, lá estava, rindo e se arrastando. A postura derrotista, tanto corporal como moral estava sempre ali, dando vontade de arrancar meus cabelos! Que raiva que aquela figura despertava, por estar tão entregue!

 Nas entrelinhas da costura de sua calça caqui estava escrito claramente que um dia, desejara ser mais e até mesmo, alguém. Às vezes quando acordava pela manhã, ele acreditava ser mais do que era. Contudo, não havia escapatória da verdade que era um derrotado, um grande perdedor. Outrora um rapaz cheio de vontades e sonhos, mas deixou-se abater e ser pisado pela vida e por pessoas que gritavam mais que ele. Àquelas polos pastéis sobraram apenas o abaixar de cabeça e a concordância, quando diziam que era um nada! E assim, ele assumiu aqueles ombros caídos, o arrastar dos sapatos pelos corredores, o riso nervoso, pois se não pode gritar ao mundo respeito, que fazer? Rir, rir... fingir que estava tudo bem. Querendo ou não, aquilo era ele, o tédio, a derrota, uma perda de tempo!

Porém, nunca soube que era mal de verdade. Naquela manhã, quando o relógio bateu o horário da nuvem encobrir a sala toda, nada. Esperei, achei estranho que uma pessoa calça caqui daquelas perdesse o horário, não, não ele. Mais meia hora se passou e nada... até que minha colega entrou na sala com um semblante misterioso. Havia nela uma sobriedade irônica, um querer-não-rir-mas-rindo. Achei gozado. Ela me jogou um jornal na mesa. Abri. Lá estava a manchete:

“Primeira pessoa morta efetivamente de tédio!”

Achei engraçado. Li mais um pouco. Olhei para minha colega e desatei a rir-querendo-não-rir.

A vítima? A esposa das calças caqui.

 Escrito por: Srta. Paradoxo.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Bem-me-quer

Arrogante, pretensioso e lindo
Fala demais, ego grande demais, tal qual o seu charme
Se acha, se vangloria, se veste bem
Fuma, bebe e usa um perfume estonteante
Esnoba, maltrata e cativa
Te faz chorar, te faz odiar, te faz rir
Não te olha, não te dá bola e não para de pensar em você
Diz que não te quer, diz que você não é o tipo dele e diz que te quer
Conta seus casos amorosos, tenta te espantar, tenta te trazer mais pra perto
Nunca está presente, sempre independente e as vezes fica vermelho de timidez
Tem namorada, tem ciúme e tem interesse em você
Fica nervoso, fica irritado e fica mais lindo ainda quando isso acontece
Reclama, fala mal e imita os outros mas só pra te fazer sorrir
É orgulhoso, faz propaganda de si mesmo e funciona
Não sabe o que quer, sabe bem o que quer e isso não inclui você
E termina mais um dia, com vocês separados
O dito pelo não dito, cada um em outros braços.

Postado por: A Namoradeira

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Um dia em plano detalhe (do dia que deveria ter sido postado ontem)

O alarme soou.
Abriu os olhos tentando assimilar aquele faixo de luz que entrou rasgando sua retina e os fechou novamente. Só mais 10 minutinhos. Procurou a tecla do touch screen do celular. Cobriu-se, sentindo o tecido do edredon tocar seu rosto naquela sensação deliciosa de conforto ao poder dormir mais um pouco.

Logo menos, levantou-se. Dirigiu-se ao banheiro para escovar os dentes com aquelas cerdas já gastas e colocou a pasta Tandy Tutti-Fruti na escova. Quando o gel doce tocou seus dentes, sentiu tanto com o paladar quanto o olfato aquela nostalgia de quando se aprontava para ir à escola na infância e usava a mesma pasta de dente. Uma saudade.

Um pouco depois, lá foi esperar o ônibus. No ponto, começou a notar as cascas do tronco da árvore carcomida que ou pessoas as arrancaram ou a própria natureza se incubiu de levar. Ali, viu um verdinho de seiva no meio do marrom. É. Certeza que foi recente e obra de algum ser humano que ali passara.

No terminal, muito barulho. Dos motores, das conversas, dos passos, dos carros do outro lado da avenida. A sonora que entra e bate que bate que bate no tímpano sem fim. Esperou o degrau certo para colocar seu pé na escada rolante e assim esperou. Muitas marcas desenhavam um conglomerado de pontos pretos e amassados no chão metálico, podendo perceber que eram chicletes velhos que agora também faziam parte daquela estrutura de se pisar.

Após sair do metrô, caminhando em direção ao trabalho, admirou-se rapidamente no reflexo do vidro de uma agência bancária. Er, até que está tudo em ordem. Mirou a frente.

No escritório, colocou a marmita na geladeira e lá estava aquele suco mais um dia na geladeira. Quantos dias será que ele está ali? Nem me arrisco a tentar tomá-lo. Fechou-a. Sentou em sua mesa e colocou aquele fone de ouvido que pega na borda da orelha. Isso porque elas nem são de abano. É, é. Em 30 minutos ela já está doendo. Ai, Ai. Melhor aqueles de colocar direto no ouvido mesmo.

No meio do expediente: balinhas de chá. A chefe colocou milhares delas no baleiro. Uns tem vício por café, outros por cigarro, alguns por papear com ciclanos enquanto fazem uma pausa no ofício. Eu gosto de pegar balinhas. Um gosto adocicado de chá sólido. Erva doce, camomila, erva cidreira que derretem na boca, pedindo compulsivamente mais e mais e mais balinhas. Shiups.

Aí no fim do dia, voltando para casa, parou na barraquinha de pipoca, mas pediu batata frita. Com sal da metade pra baixo e na metade de cima, por favor. Ah, amo tanto batata. Croc, croc. Salgada, frita, quebradiça e croc, croc entre os dentes.

Chegou em casa. Mais um dia feliz que seu cachorro lhe recebeu com festa. A ternura de encontrá-lo é tanta que o ritual é ir até a escadinha e afagar os pelos loiros e sedosos daquele vira-lata sapeca, falando com a voz o mais soprano possível perto da orelha atenta dele, afagos de amor de um dono para o seu cachorro do tipo: "Voxê é a coisa mais rica desse mundo. Sabia disso, seu loiro mais djago do universo?" Até escutá-lo responder, porque sim, eles respondem, RRUAU RRUAUUU pausadamente. Esse RRUAU não é um latido. É como se ele dissesse: "É veUUURRdade"

Por fim, depois de todas as tarefas de casa, além das higiênicas pós-mais-um-dia-rotineiro, entrou em seu quarto na mesma dúvida de todos os dias: desligar primeiro a TV ou o interruptor? Ir até o interruptor com o óculos no rosto ou deixá-lo sobre seu apoiador pinguim de óculos? Ah, deixa pra lá. Cada dia é de um jeito. E é assim que eu gosto. Detalhes sinestésicos diferentes a cada dia.

Cinco sentidos contornando meus dias.


Escrito por A Ême

terça-feira, 6 de maio de 2014

03/05

Ontem fui saudade.

Os cheiros são neutros,
Os gostos todos insossos
E o maior calor, uma grande geada vinda do poço.

Hoje sou saudade.

Os risos, hoje lágrimas
Os abraços, hoje ausência
Os te amos, hoje silêncio

Amanhã serei saudade

Pois quanto mais feliz fico,
mais triste me percebo,
pois sei que não poço dividir esta alegria
com quem tanto me acolheu no peito.

Sempre serei saudade

De um amor que ainda sinto
De um calor que ainda quero
De um te amo que ainda ouço

Um profundo buraco negro
no peito,
que quando acordado não passa da mais pura das verdades:

a Saudade...


Escrito por: a incompleta

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Música não se escuta, se sente


Começou nos anos 90. 

Com o arranque da moto do tio saindo de casa. Que som interessante. Era tipo um vrum, mas não um vrum curto. Era um vruuum longo que ficava mais grave a medida que ela partia. Anos depois, percebeu que esse som conseguia ser mais ou menos reproduzido por um instrumento que muito lhe chamava a atenção. Baixo. Sempre seu instrumento favorito.


De repente, a alma clamava por determinadas melodias. Até se afinar. 

Cada ser possuí uma nota que consegue conversar com seu interior. - concluiu ela. Você provavelmente deve conhecer a sua.

A música é tão intensa que até os que não conseguem ouví-la, a sentem. Verdade esclarecida por um colega surdo-mudo. Ele se atentava às vibrações e dançava com elas. 

Quando se escuta as batidas, sua alma entra em êxtase além da matéria, mas se isso pudesse acontecer fisicamente você se imaginaria de cabelo em pé como o do cientista Beakman. Como se um eletromagnetismo percorresse sua corrente sanguínea.

Música que faz parte da história. Ouve-se as batidas e se é transportado à determinadas fase da vida.
Música que cura. Quem na fossa ou na alegria não desabafou com a melodia?

Música que te faz agradecer por ser humano e poder degustar a imensidão de ritmos. 

Um, dois, três,
testando,
SOM.


Postado por A Ême

terça-feira, 29 de abril de 2014

Isso é bullying, hein!


Hoje tenho 25 anos e tenho plena consciência de estar na flor da idade. 
Ter filhos é fácil, minha saúde é ótima e apesar da preguiça de sempre, tenho muita energia para trabalhar, sair e fazer tudo o que quero.
Minha memória não me deixa na mão, meus ouvidos e todos os demais sentidos também funcionam perfeitamente.

Aprendo as coisas com facilidade, meus olhos ainda não possuem rugas, minhas bochechas ainda estão no lugar e resumindo, meu metabolismo e o corpo em geral ainda é muito bom.

Hoje tenho 25, mas em um piscar de olhos terei 52.

Ter filhos não será mais tão fácil, se bobear será impossível. Minha memória começará a falhar, bem como os demais sentidos, meu rosto ficará mais cansado, trará com ele as marcas da vida, minha energia ficará mais escassa e pode ser que até minha voz comece a falhar.

Nada mais normal do que perceber que a velhice, ou melhor, o tempo está mostrando seus efeitos no corpo humano, não é? Afinal, para envelhecer basta estar vivo.

Diante dessa normalidade da vida que acabamos de confirmar, eu me pergunto então, porque as pessoas criticam tanto Axl Rose por estar velho.
O cara canta há quase 30 anos, pula que nem um canguru durante 2h40 de show, levanta a galera, marca a adolescência e infância das pessoas com música BOA e na hora dos fans retribuírem é isso que ele recebe em troca por algo que ele não controla, que é o tempo?

É óbvio que muita droga rolou nesse tempo, que ele deu um empurrão para se estragar. 
Mas e daí?

No auge de seus 20 e poucos anos o cara era a beleza na terra para algumas meninas, com seus lindos e longos cabelos lisos e amarelos, Axl sensualizava a cada jogar de cintura que dava quando soltava a voz e agora, com o rosto enrugado, mais pesado e cansado, seu passado que tanto acalentou a juventude dos anos 80/90 espairece como fumaça diante dos comentários extremamente maldosos de que o cara está velho.

É obvio que ele está velho!!! O tempo passou ué!!!!

Se coloque neste minuto no lugar dele. Imagine como não deve ser para ele, depois de tanto sucesso que fez, com mulheres aos seus pés e fans malucos gritando o nome dele, perceber que a idade chegou e que nada disso que ele fez é reconhecido hoje, dando espaço apenas para esses tipos de comentários?

Coitado gente, o tempo não é controlável! Você ficará velho um dia, hein!
É engraçado falar, mas esses comentários não passam de Bullyings!!

E se você quer saber, é óbvio que a voz dele não está como antes, que ele não consegue mais cantar no volume que cantava. Mas isso já não era de se esperar depois de 30 anos de muito rock? Mesmo assim, a energia do cara me impressionou. Não parava de correr, andar, dançar um minuto sequer, e durante 2h40 –  os recalques que me desculpem (ou não, foda-se eles...) -  Axl Rose fez um show (dia 28/03) que ficará marcado para sempre na minha vida.

A casca de Axl está velha, mas ele nunca deixará de ser o Axl que marcou minha adolescência e hoje é além disso, é o Axl que também marcou a época que eu estava na flor da minha idade.

Para quem quiser dar uma olhadinha no show que falei:


Escrito por: A realista